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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

LEVANTE, VOVÓ ! (1965)

. Importunei tanto a minha irmã caçula Setsuko, que ela fez beicinho e gritou: "Vovó, olha o Yoshimaro!". Num instante, já estava correndo pela porta afora, com a vovó ao meu encalço, empunhando uma vassoura. Mas não precisava correr muito. Afinal, tudo não passava de encenação. Ela fingia que estava furiosa comigo e eu simulava ter medo dela.
. A "perseguição" tornou-se um hábito. O transeunte podia observar atônito uma inusitada exibição. Um garoto fugindo, acossado por uma velhinha que brandia exaltada uma vassoura.
. À noite, feitas as pazes, repartíamos a cama, como bons amigos.
. Vovó então falava dos meus antepassados, desfilava fábulas, algumas de provocar arrepios.
. Cresci e chegou a minha vez de contar histórias. E até hoje a vovó me julga um grande mentiroso. Ela jamais acreditou em aviões supersônicos, energia nuclear, cinerama e outras excentridades e bobagens modernas.
. Havia uma distância enorme entre os ingredientes dos meus relatos e os personagens das narrativas da vovó, coalhadas de lobos ferozes, texugos mágicos, raposas astutas e almas penadas.
. Aliás, a vovó e eu vivíamos fingindo.
. Adolescente, com o pai falecido, comecei a trabalhar e adquiri o vício do fumo. Todas as vezes que me faltavam cigarros, costumava tomar "emprestado" um maço da vovó. Ela fazia de conta que não sabia de nada. Vovó mantinha um belo estoque de cigarros, pois dispunha de um generoso fornecedor, meu tio Haruichi, o Sakitão. Mas, ocupado demais, às vezes o Sakitão descuidava e o meu maço "desaparecia". Aí eu fingia que não havia notado o sumiço.
. Para ser honesto e pensando bem, acho que fiquei devendo a ela pelo menos três pacotes, pois apelava com maior frequência.
. Devo confessar também que não herdei a tenacidade da vovó para o trabalho. Sou um bocado preguiçoso.
. A vovó nunca gostou de ficar parada. Vivia construindo cercadinhos e formando pequenas hortas no quintal. Plantava cebolinha, berinjela, vagem e com frequência presenteava a vizinha brasileira, perguntando "quê baji?".
. Lembro-me que, no primeiro ano, as verduras e os legumes cresciam viçosos e bonitos. No segundo, nem tanto. No terceiro, ficava tudo nanico. De nada adiantava a vovó percorrer as ruas recolhendo esterco de cavalo para adubo. Aí, ela mudava o cercadinho para outro local e começava tudo de novo.
. Era uma horta ambulante.
. Com o tempo, a vovó passou a evitar as ruas. Parou de sair e deixou que as ervas daninhas invadissem a sua horta. É que suas costas se curvaram tanto que ela tinha vergonha disso.
. Hoje, a vovó não precisa mais se envergonhar. Ninguém mais repara nas suas costas. A doença tomou conta dela e ela está definhando, magrinha, magrinha, sem forças para se levantar da cama.
. Mas aqui, bem dentro do meu coração, há uma grande esperança de que a vovó resistirá por muito tempo.
. A vovó não se intimida com nada. Em casa, ela e eu somos os mais teimosos.
. Por isso mesmo, vamos teimar até o último alento.
. Não é, vovó?
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. Esta crônica, escrita em 1965, há 44 anos, foi publicada na Tribuna Bastense e reproduzida pelo Jornal de Tupã. No mesmo ano, Deus chamou a vovó. Câncer. Transcrevo o texto no blog por sugestão do advogado Carlos Veronezi, de Bastos. Caramba, que memória a sua, amigo!
. Outra coisa. Faz um tempão que parei de fumar. Sem dúvida, o cigarro é um cilindro de papel com brasa numa ponta e um idiota na outra.